| No Regimento Geral do SiAC | Como o canteiro chama | O que é |
|---|---|---|
| Procedimento de Monitoramento e Inspeção de Material Controlado (art. 5º, inciso XXXII) | Procedimento de recebimento | Documento técnico que, considerando as normas técnicas aplicáveis, estabelece a forma de monitorar e de inspecionar um material ou componente que afete a qualidade da obra, de forma a liberá-lo |
| Informação documentada sobre a liberação de materiais controlados (requisito 8.6) | FVM | Registro da inspeção de recebimento, com a evidência de conformidade contra os critérios de aceitação e a identificação de quem autorizou a liberação |

Checklist de recebimento de materiais na obra: FVM e recusa
O checklist de recebimento de materiais obra é a inspeção técnica feita no portão do canteiro, antes do descarregamento. Ele compara a carga com o pedido de compra, com a nota fiscal e com a especificação do projeto, confere a identificação e o lote do produto, a quantidade, o estado da carga e os critérios técnicos daquele insumo, e termina com uma decisão registrada: aprovado ou reprovado, com data e com o nome de quem liberou. No PBQP-H SiAC, esse registro é a ficha de verificação de materiais FVM.
Quando a carga reprova, a conferência técnica vira um ato fiscal, e o relógio conta. A recusa acontece no ato, com o caminhão ainda na obra: ressalva escrita no verso do DANFE antes de o veículo sair, foto da ressalva, e registro do evento de Manifestação do Destinatário na SEFAZ. Essa é a metade da história que os textos de engenharia não contam, e que os textos fiscais contam sem saber o que acontece no canteiro.
Um aviso de rota antes de começar. Este guia trata do recebimento de insumo no canteiro, a carga que chega no portão. Não é o checklist de vistoria de entrega das chaves ao cliente, que tem outro objetivo, outro momento e outra lista.
O que é o checklist de recebimento de materiais e o que é a FVM
O checklist de recebimento é o roteiro de inspeção aplicado a cada lote que chega. A FVM é o registro dessa inspeção. Um é o método, o outro é a evidência.
Quem procura "FVM" no Regimento Geral do SiAC não encontra a sigla, e isso confunde muita gente. O regimento usa outros nomes, e a tradução é direta:
A FVM tem uma irmã mais conhecida, a FVS. A diferença é o objeto: a Ficha de Verificação de Serviço registra a inspeção de um serviço executado, como uma alvenaria ou uma impermeabilização. A FVM registra a inspeção de um material recebido. As duas nascem da mesma lógica do SiAC, que é liberar só o que foi verificado contra um critério escrito.
No canteiro, o recebimento costuma envolver três papéis. O almoxarife confere documento, quantidade e integridade. O técnico da qualidade aplica os critérios técnicos do procedimento. O engenheiro residente decide os casos que fogem do padrão e assume a liberação quando há restrição. Quem faz o quê precisa estar escrito no procedimento da empresa, e não combinado no boca a boca, porque é essa definição que sustenta a assinatura na ficha.
O que conferir antes de autorizar o descarregamento
Há um conjunto de checagens que vale para qualquer insumo, do cimento ao interruptor. Elas acontecem com o caminhão parado, antes de qualquer coisa ser descarregada, porque depois do descarregamento o problema muda de natureza: deixa de ser recusa e passa a ser devolução, com outro rito e outro custo.
| O que conferir | Contra qual documento | O que reprova |
|---|---|---|
| Material e especificação | Pedido de compra e projeto | Produto diferente do especificado, classe inferior, marca não aprovada |
| Quantidade e unidade | Pedido de compra e nota fiscal | Divergência entre o que veio, o que foi pedido e o que foi faturado |
| Identificação e marcação do produto | Norma do produto e especificação | Produto sem marcação legível de fabricante, categoria, classe ou dimensão |
| Lote, corrida ou data de fabricação | Certificado ou relatório do fabricante | Lote que não bate com o documento apresentado, ou ausência da identificação |
| Validade | Embalagem e ficha técnica | Produto vencido ou com prazo insuficiente para o uso previsto |
| Estado da carga | Inspeção visual | Avaria de transporte, embalagem rompida, contato com água ou solo, estiva inadequada |
| Documentação técnica exigida | Procedimento de recebimento | Falta de certificado, relatório de ensaio ou ficha técnica que o procedimento exige |
Esta conferência não começa no portão. Ela começa na compra. O requisito 8.4.3.1 do SiAC é curto e direto: os documentos de compra de material controlado devem descrever claramente o que está sendo comprado, com especificações técnicas. Pedido genérico gera carga indefensável. Se o pedido diz "cimento", não há critério para recusar o tipo errado. Se o pedido diz o tipo, a classe e a norma, a recusa se sustenta sozinha.
Uma regra prática fecha esta seção: enquanto a checagem documental não fecha, o caminhão não descarrega. Cinco minutos de conferência no portão valem mais do que uma semana de negociação com o fornecedor depois.
O que conferir em cada material
Aqui vale um aviso honesto, e ele é parte do método. Tolerância numérica não se cita de memória. As faixas de abatimento, os desvios dimensionais de bloco, a variação de massa do aço e os tempos de aplicação mudam entre edições de norma e entre tipos de produto. O número que vale é o da norma vigente do produto e o da especificação do projeto, e é esse número que precisa estar escrito no procedimento de recebimento da empresa, com a norma e o item de onde saiu.
O que este guia entrega é o que todo mundo omite: o que olhar, contra qual documento, e o que reprova a carga.
Concreto usinado
O concreto é o insumo mais sensível do recebimento, porque a conferência acontece com o caminhão na rampa e o resultado definitivo só chega dias depois.
| O que olhar no portão | O que exigir no papel | Referência | O que reprova |
|---|---|---|---|
| Horário de saída da central e horário de chegada | Nota fiscal de simples remessa com horário registrado | NBR 7212 | Tempo entre a primeira adição de água e o fim da descarga acima do limite da norma |
| Classe de resistência, consumo de cimento, relação água cimento e dimensão máxima do agregado | Nota fiscal confrontada com o projeto estrutural | NBR 12655 | Qualquer divergência em relação ao especificado em projeto |
| Consistência do concreto, pelo ensaio de abatimento | Valor especificado em projeto e tolerância da norma de fornecimento | NBR 16889 para o método | Abatimento fora da faixa especificada, medido antes da descarga |
| Moldagem dos corpos de prova | Plano de controle tecnológico da obra | NBR 5738 para a moldagem | Caminhão liberado sem a amostra prevista para aquele lote |
Duas condutas separam a obra organizada da obra que descobre o problema aos 28 dias. A primeira é ensaiar o abatimento antes de descarregar, e não durante. A segunda é não adicionar água no canteiro para corrigir a consistência sem autorização do responsável técnico, porque a adição desfaz a dosagem e invalida qualquer reclamação futura. Registre também em qual peça foi lançado cada caminhão, porque é isso que o requisito 8.5.2.2 do SiAC exige e é o que permite localizar o problema se o corpo de prova reprovar.
Aço CA-50 e CA-60
| O que olhar no portão | O que exigir no papel | Referência | O que reprova |
|---|---|---|---|
| Marcação em relevo com fabricante, categoria e diâmetro nominal | Certificado de qualidade vinculado à corrida e ao lote | NBR 7480 | Barra sem marcação identificável ou certificado que não corresponde ao lote entregue |
| Estado superficial | Inspeção visual | NBR 7480 | Descamação, corrosão com perda de seção, contaminação por óleo, tinta ou graxa |
| Geometria das barras | Inspeção visual | NBR 7480 | Dobras, trincas transversais e deformações não previstas |
| Massa por unidade de comprimento | Pesagem de amostra em balança calibrada, contra o valor nominal e a tolerância da norma | NBR 7480 | Massa fora da tolerância que a norma vigente define para aquele diâmetro |
Dois cuidados. A tolerância de massa do aço varia conforme o diâmetro nominal e conforme a edição da norma, e ainda existe critério distinto para a média das amostras, então consulte a NBR 7480 vigente e transcreva os valores para o procedimento da obra, em vez de usar tabela copiada de apostila. E oxidação superficial leve, aquela que sai ao esfregar com pano áspero e não deixa perda de seção, não é motivo de recusa. Descamação é.
Blocos cerâmicos e blocos de concreto
| O que olhar no portão | O que exigir no papel | Referência | O que reprova |
|---|---|---|---|
| Identificação do fabricante, tipo e classe do bloco | Nota fiscal e especificação do projeto | NBR 15270 para cerâmicos, NBR 6136 para concreto | Classe diferente da especificada, principalmente em alvenaria estrutural |
| Dimensões e esquadro, por amostragem | Tolerâncias da norma do produto | NBR 15270, NBR 6136 | Desvios acima da tolerância normativa, medidos em amostra representativa |
| Integridade das peças e amostra para ensaio | Inspeção visual e plano de controle tecnológico | Norma do produto e condição contratual | Trincas passantes e quebras acima do limite acordado, ou lote sem a amostragem prevista |
O percentual de peças quebradas aceitável raramente está em norma. Ele é condição de compra. Defina esse limite no pedido, por escrito, antes da primeira carga, ou a discussão no portão vira negociação.
Cimento Portland
| O que olhar no portão | O que exigir no papel | Referência | O que reprova |
|---|---|---|---|
| Tipo e classe do cimento | Especificação do projeto e nota fiscal | NBR 16697 | Tipo diferente do especificado para aquela aplicação |
| Integridade dos sacos e condição da carga | Inspeção visual | NBR 16697 | Sacos rasgados, úmidos ou com sinal de contato com água |
| Estado do produto e data de fabricação | Apalpação dos sacos e marcação na embalagem | Norma do produto e orientação do fabricante | Empedramento, grumos rígidos que não se desfazem com a pressão dos dedos, data incompatível com o prazo de uso recomendado |
Sobre validade, uma correção comum: o prazo de uso do cimento ensacado costuma ser recomendação do fabricante, não requisito da norma de especificação. Verifique a embalagem e a ficha técnica do produto que a sua obra usa, e escreva esse prazo no procedimento.
Argamassa colante e argamassas industrializadas
Confira a classe do produto contra o projeto de revestimento, como AC-I, AC-II ou AC-III, mais a integridade dos sacos, o lote e a validade. A classe é o erro silencioso do acabamento: área externa, área molhada e peça de grande formato pedem classes diferentes, e a substituição por classe inferior só aparece quando a peça descola, meses depois. Classe inferior à especificada reprova a carga.
Tubos, conexões, fios e cabos
Confira a marcação normativa impressa no produto, a bitola e a classe de pressão contra o projeto de instalações, a integridade das peças e a documentação de conformidade exigida no procedimento. Material de instalação recebido sem conferência é o que mais gera retrabalho caro, porque a falha aparece depois do revestimento aplicado.
Impermeabilizantes e revestimentos cerâmicos
Confira lote, validade, ficha técnica e compatibilidade com o sistema previsto em projeto. Em revestimento cerâmico, confira também tonalidade, calibre e bitola, comparando peças de caixas diferentes da mesma carga. Variação de tonalidade entre lotes não é defeito de fábrica, é falha de compra, e o único momento de resolver isso é antes do descarregamento.
Quais materiais entram na lista de materiais controlados do PBQP-H?
Aqui está a resposta que quase nenhum conteúdo do setor dá corretamente: para quem busca por materiais controlados PBQP-H lista esperando uma tabela pronta, saiba que não existe uma lista oficial de materiais controlados no PBQP-H. Quem procura a relação pronta de insumos no regimento não encontra, porque ela não está lá.
O que existe está no Anexo 4 do Regimento Geral do SiAC, item 3. O texto manda a empresa construtora preparar uma lista mínima de materiais que afetem tanto a qualidade dos seus serviços de obra controlados quanto a da obra, representativa dos sistemas construtivos que ela utiliza, e diz que dela devem constar, no mínimo, 20 materiais. Nenhum material é nomeado.
A lista tem uma ordem de montagem definida pelo próprio anexo. Primeiro vem a lista de serviços de obra controlados, que parte dos 27 serviços do item 1. A partir dela, a empresa relaciona os materiais empregados nesses serviços. Materiais entram na lista porque os serviços onde eles são usados estão sob controle, e não porque alguém decidiu que cimento e aço parecem importantes.
Três regras complementam o item 3 e mudam a lista de verdade:
- Exigência do cliente. Em qualquer nível, entram também os materiais com inspeção exigida pelo cliente e aqueles considerados críticos em função de exigências do cliente.
- Obra habitacional. Entram os materiais empregados em serviços associados a sistemas convencionais com Ficha de Avaliação de Desempenho (FAD) e a produtos inovadores com Documento de Avaliação Técnica (DATec) especificados nos projetos.
- Produção em obra vai para a outra lista. A nota 1 do item 1 é clara: a produção de materiais e componentes em obra, como concreto, graute, blocos, elementos pré-moldados, argamassas e esquadrias, entra na lista de serviços controlados, não na de materiais. Quem produz concreto no canteiro controla um serviço, não um recebimento.
O número mínimo também não é dogma. A disposição final 1 do item 5 admite número diferente de 20, desde que justificado pelo sistema construtivo empregado, e os percentuais passam a se aplicar ao número apresentado pela empresa.
Quantos materiais o nível A e o nível B exigem
O item 4 do Anexo 4 fixa o percentual mínimo da lista que precisa estar sob controle: 50% no nível B e 100% no nível A. Sobre esse percentual incidem dois redutores, ambos com arredondamento obrigatório para cima. A empresa precisa ter procedimento documentado para o percentual inteiro, aplicá-lo com pessoal treinado e registros em pelo menos metade do percentual, e dispor de obra onde o auditor observe a aplicação em pelo menos um quarto do percentual.
Aplicando a regra sobre a lista mínima de 20 materiais:
| Exigência do Anexo 4, item 4 | Nível B, 50% | Nível A, 100% |
|---|---|---|
| Materiais com procedimento documentado | 10 | 20 |
| Aplicados com treinamento e registros gerados | 5 | 10 |
| Vistos sob controle na obra durante a auditoria | 3 | 5 |
Se a lista justificada da empresa tiver 24 materiais, os números sobem na mesma proporção, sempre arredondados para cima. E, como a certificação é da empresa e não da obra, a disposição final 4 permite somar registros e controles de várias obras para fechar a quantidade exigida.
Onde a lista de materiais vive
Em dois documentos. O Plano da Qualidade da Obra, pelo requisito 8.1.1, traz a relação de materiais e serviços controlados daquela obra com os respectivos procedimentos de execução e inspeção. E o plano de controle tecnológico, definido no art. 5º do Regimento Geral, relaciona os meios, as frequências e os responsáveis pela realização dos ensaios dos materiais controlados a serem aplicados e dos serviços controlados a serem executados.
Montar a lista, na prática, são cinco passos: liste os serviços controlados da obra, relacione os materiais usados em cada um, acrescente os materiais exigidos pelo cliente e os ligados a FAD e DATec, confira se chegou ao mínimo de 20 ou justifique outro número, e escreva o procedimento de recebimento de cada material da lista.
Preciso ensaiar todo lote que chega na obra?
Não, e esta é uma das informações mais úteis e menos divulgadas do SiAC. O requisito 8.6.1 prevê duas dispensas expressas de ensaio de recebimento:
- Dispensa por qualificação do fornecedor ou do produto. A empresa construtora é dispensada da realização de ensaios de recebimento de materiais conformes de empresas qualificadas nos PSQ, os Programas Setoriais da Qualidade do SiMaC, ou de produtos certificados no SBAC, o Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade.
- Dispensa por relatório de ensaio do lote. A empresa é dispensada do ensaio de um lote específico quando o fabricante fornece relatório de ensaio demonstrando o atendimento às condições previstas nas normas técnicas de especificação. O relatório precisa demonstrar a rastreabilidade entre os materiais ensaiados e os entregues na obra.
Atenção ao detalhe que muda tudo: dispensa de ensaio não é dispensa de inspeção de recebimento. O mesmo requisito 8.6.1 determina que os procedimentos documentados assegurem a inspeção de recebimento. Continuam valendo a conferência documental, a identificação do lote, a verificação visual e dimensional e o registro na FVM. O que cai é a obrigação de ensaiar.
Do outro lado da compra há uma proibição pouco conhecida, no requisito 8.4.1.1: é vedada à empresa construtora a aquisição de produtos de fornecedores de materiais e componentes considerados não conformes nos PSQ. Antes de fechar a compra de um insumo com programa setorial ativo, vale conferir a situação do fabricante. O mesmo requisito dispensa do processo de qualificação o fornecedor qualificado no PSQ, o detentor de certificação no SBAC emitida por Organismo de Certificação de Produto acreditado pela CGCRE e o detentor de DATec do produto a ser adquirido.
O que a FVM precisa ter para valer na auditoria
O requisito 8.6 do SiAC resolve a pergunta em duas alíneas. A informação documentada sobre a liberação de materiais controlados deve incluir evidência de conformidade com os critérios de aceitação e rastreabilidade à pessoa que autoriza a liberação. Tudo o que a ficha precisa ter sai daí.
| Bloco da ficha | Campos mínimos |
|---|---|
| Identificação | Obra, data e hora do recebimento, fornecedor, número da nota fiscal, número do pedido de compra |
| Objeto | Material e especificação, lote ou corrida, quantidade recebida, unidade |
| Verificação | Cada critério de aceitação do procedimento, com o valor medido ou o resultado observado e a conclusão por critério |
| Evidência | Fotos vinculadas ao lote, documentos anexados, como certificado do fabricante e relatório de ensaio |
| Decisão | Aprovado, reprovado ou aceito com restrição, com a justificativa |
| Responsabilidade | Nome e função de quem inspecionou e de quem autorizou a liberação, com data |
| Destino | Local de estocagem e, quando aplicável, local de aplicação do lote |
A diferença entre uma ficha que sustenta a auditoria e uma que não sustenta está no preenchimento, não no formato:
- Registro fraco: "Aço CA-50: OK". Registro forte: "Aço CA-50, corrida 24815, massa aferida em amostra de 1 m contra o valor nominal, resultado dentro da tolerância do procedimento PR-07, certificado do fabricante anexado".
- Registro fraco: "Recebido". Registro forte: "Liberado por [nome], técnico da qualidade, em 22/09/2026, lote destinado à laje do pavimento 3".
Três requisitos completam o que a ficha precisa suportar:
- Material não conferido não pode ser aplicado. O requisito 8.5.2.1 determina que os materiais controlados não sejam empregados, pela construtora ou por subcontratada, enquanto não tenham sido controlados. É a regra que resolve a carga que chega às 18h de sexta.
- Se precisar aplicar antes, identifique formalmente. O mesmo requisito prevê a exceção: quando um material precisa ser aplicado antes de ter sido controlado, ele deve ser formalmente identificado, permitindo sua posterior localização e as correções necessárias caso não atenda às exigências. Identificação formal significa registro, não fita colorida.
- Rastreabilidade por lote. Pelo requisito 8.5.2.2, os materiais cuja qualidade não possa ser assegurada antes da aplicação exigem identificação única dos locais de utilização de cada lote.
- A conferência não acaba na aprovação. O requisito 8.5.4 põe identificação, manuseio, transporte e estocagem dentro da mesma obrigação de preservar a conformidade, inclusive quando o material está com empresa subcontratada. Cimento aprovado e mal estocado vira cimento reprovado por culpa da obra.
Sobre papel, aplicativo ou uma planilha de recebimento de materiais Excel: o SiAC não exige formato pré-determinado. Exige conteúdo, controle e disponibilidade da informação documentada. O que decide na prática é a sobrevivência do registro. Ficha de papel no portão some, molha e volta ao escritório dias depois, o que produz data incoerente com a entrega. Uma planilha preenchida no fim do dia não carrega foto vinculada ao lote e não guarda quem preencheu. Qualquer que seja a escolha, a auditoria vai procurar a mesma coisa: critério, resultado, evidência e responsável.
Como recusar a carga no ato e o que escrever no verso do DANFE
Para os profissionais que buscam orientações sobre como recusar nota fiscal de material com defeito, a regra de ouro é o momento da decisão: reprovou no portão e o caminhão ainda está na obra? Então é recusa no ato, e o documento de acompanhamento do retorno é o próprio DANFE com o motivo escrito no verso.
O procedimento para a anotação no verso do DANFE recusa de carga tem base legal expressa. O Ajuste SINIEF 07/2005, na cláusula décima, parágrafo 3º, determina que o emitente da NF-e guarde, pelo prazo da legislação tributária, o DANFE que acompanhou o retorno de mercadoria não entregue ao destinatário e que contenha o motivo do fato em seu verso. Repare em quem guarda o documento: o fornecedor. Por isso a construtora precisa fotografar a ressalva antes de liberar o caminhão, porque o papel original vai embora.
A ressalva precisa conter:
- Declaração expressa de recusa, total ou parcial, no ato da entrega.
- Motivo objetivo, com o critério verificado e o que foi encontrado.
- Identificação do destinatário, com razão social e CNPJ.
- Nome completo, CPF e cargo de quem recusou.
- Data e hora da recusa.
- Assinatura.
Modelo de texto para copiar e adaptar:
Mercadoria recusada integralmente no ato da entrega, sem descarregamento. Motivo: [descrever o critério verificado e o resultado encontrado]. Pedido de compra nº [número]. Destinatário: [razão social], CNPJ [número]. Recusa realizada por [nome completo], CPF [número], [cargo], em [data], às [hora]. Assinatura: ______________________.
Dois exemplos de motivo escritos como engenheiro escreve, objetivos e verificáveis:
- "Concreto recusado por abatimento fora do valor especificado no projeto estrutural, medido na chegada conforme o procedimento de recebimento da obra, na presença do motorista."
- "Blocos recusados por divergência de classe em relação ao pedido de compra nº 4482 e por peças trincadas acima do limite acordado em contrato de fornecimento."
Antes de liberar o veículo: fotografe o verso do DANFE preenchido, fotografe a carga que motivou a recusa e registre tudo na FVM daquele recebimento. A FVM reprovada e a foto da ressalva são as duas provas que resolvem a discussão com o fornecedor uma semana depois.
Recusa no ato ou nota fiscal de devolução?
A diferença entre as duas situações é o descarregamento. Ela muda quem emite documento e qual evento é registrado.
| Aspecto | Recusa no ato | Devolução depois do recebimento |
|---|---|---|
| Momento | Com o caminhão na obra, antes de descarregar | Depois de descarregado e recebido |
| Entrada física | O material não entra no canteiro | O material já entrou e foi estocado |
| Verso do DANFE | Ressalva obrigatória, com o motivo | Não se aplica, o canhoto já foi assinado |
| Documento emitido pela construtora | Nenhum | Nota fiscal de devolução, conforme a legislação aplicável |
| Evento de manifestação | Operação não Realizada | Confirmação da Operação, seguida da devolução |
Na recusa parcial, quando só parte da carga está errada, o tratamento precisa ser combinado antes de o caminhão sair: o que fica é recebido e registrado normalmente, o que volta precisa estar descrito na ressalva, item por item, com quantidade. Como o procedimento documental da devolução e os códigos fiscais envolvidos variam conforme a legislação estadual, alinhe a recusa parcial com o setor fiscal da empresa antes de liberar o veículo.
Como registrar a Manifestação do Destinatário na SEFAZ
A Manifestação do Destinatário é o registro eletrônico que a construtora faz sobre uma NF-e emitida contra o seu CNPJ. O Ajuste SINIEF 07/2005, na cláusula décima quinta-A, prevê quatro eventos:
| Evento | Quando usar |
|---|---|
| Ciência da Emissão | A empresa tomou conhecimento da nota, mas ainda não tem elementos para se manifestar de forma conclusiva |
| Confirmação da Operação | A operação ocorreu como informado na nota |
| Operação não Realizada | A operação foi solicitada, mas não se efetivou, que é o caso da carga recusada no ato |
| Desconhecimento da Operação | A operação não foi solicitada pela empresa |
O registro é feito no Portal Nacional da NF-e ou pelo sistema de gestão integrado ao ambiente da SEFAZ, com o preenchimento da justificativa. Para a carga recusada no portão, o evento é Operação não Realizada, com a mesma descrição objetiva usada no verso do DANFE.
Sobre prazos, um cuidado. O Ajuste SINIEF 07/2005 não fixa prazo expresso para o registro de cada evento. Os prazos e a obrigatoriedade da manifestação para determinadas operações estão no Manual de Orientação do Contribuinte e nas notas técnicas do Portal Nacional da NF-e, e devem ser confirmados com a contabilidade da empresa. Na prática do canteiro, o melhor prazo é o mesmo dia: enquanto o evento não é registrado, a operação continua em aberto para o fisco e para o fornecedor, e a regularização fica parada.
E quando a não conformidade só aparece depois?
Parte das falhas não aparece no portão. O rompimento do corpo de prova chega aos 28 dias, o ensaio de bloco volta do laboratório na semana seguinte, o defeito do revestimento aparece na aplicação. O SiAC trata esse cenário em dois requisitos.
O primeiro é a rastreabilidade do requisito 8.5.2.2, que existe justamente para isso: se o registro diz onde cada lote foi aplicado, a investigação começa na peça certa, em horas. Se não diz, a obra inteira entra em suspeita.
O segundo é o requisito 8.7, de saídas não conformes, e o material controlado é uma saída. A empresa deve identificar e controlar o material não conforme para prevenir seu uso não pretendido e lidar com ele por correção, por segregação, contenção, retorno ou suspensão, por informação ao cliente ou por obtenção de autorização para aceitação sob concessão. O requisito 8.7.2 exige reter informação documentada que descreva a não conformidade, as ações tomadas, as concessões obtidas e a autoridade que decidiu a ação.
Na sequência prática: isole o material remanescente do lote no estoque, levante onde o lote já foi aplicado, notifique o fornecedor formalmente com a FVM, as fotos, o número do lote e o laudo, e registre a decisão técnica sobre o que já está na obra. A não conformidade também precisa alimentar a avaliação de desempenho do fornecedor, prevista no requisito 8.4.1.2. Fornecedor que reprova com frequência e continua comprando sem registro é um achado fácil de auditoria.
Aceite com restrição: quando dá para aceitar material fora do especificado
O nome correto do aceite com restrição, no texto do SiAC, é aceitação sob concessão, uma das saídas previstas no requisito 8.7.1. Ou seja, aceitar material fora do especificado é possível, com três condições.
A primeira é que exista uma autoridade pertinente para decidir. O requisito 8.6.1 determina que a liberação não prossiga até que todas as providências planejadas tenham sido satisfatoriamente concluídas, a menos que aprovado de outra maneira por uma autoridade pertinente e, quando aplicável, pelo cliente. Quando a restrição afeta requisito de projeto ou exigência contratual do cliente, a decisão não é do almoxarifado nem da obra sozinha.
A segunda é o registro. O 8.7.2 exige descrever a não conformidade, as ações tomadas, as concessões obtidas e quem decidiu. Concessão sem registro é material irregular aplicado, não aceite com restrição.
A terceira é a restrição de uso. Se o material foi aceito para uma aplicação secundária, essa limitação precisa estar escrita na ficha e sinalizada no estoque, ou o lote acaba na aplicação errada na semana seguinte.
Erros que custam caro no recebimento
- Descarregar antes de conferir, o que transforma uma recusa simples em uma devolução negociada.
- Liberar o caminhão sem a ressalva no verso do DANFE e sem foto do documento.
- Montar a lista de materiais controlados copiando apostila, em vez de derivá-la dos serviços controlados da obra.
- Preencher a ficha com "OK" onde deveria estar o valor medido contra o critério.
- Aprovar sem registrar quem autorizou a liberação.
- Guardar fotos soltas no celular, sem vínculo com o lote e com a nota fiscal.
- Aprovar o material e estocar errado, perdendo no pátio a conformidade verificada no portão.
- Reprovar o lote e não alimentar a avaliação do fornecedor, repetindo a compra no mês seguinte.
- Preencher a FVM dias depois, com data que não conversa com a data da entrega.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre FVM e FVS?
A FVM, Ficha de Verificação de Materiais, registra a inspeção de recebimento de um material controlado. A FVS, Ficha de Verificação de Serviço, registra a inspeção de um serviço controlado já executado. As duas cumprem o requisito 8.6 do SiAC, que exige evidência de conformidade com os critérios de aceitação e identificação de quem autoriza a liberação.
Quem deve assinar a FVM no recebimento?
Quem o procedimento da empresa designar, e a ficha precisa registrar duas figuras: quem inspecionou e quem autorizou a liberação. Na maioria das obras, o almoxarife confere documentos e quantidade, o técnico da qualidade aplica os critérios técnicos e o engenheiro residente decide os casos com restrição. O requisito 8.6 exige rastreabilidade à pessoa que autoriza.
Posso descarregar primeiro e conferir depois?
O requisito 8.5.2.1 do SiAC determina que materiais controlados não sejam empregados enquanto não tiverem sido controlados. Se um material precisar ser aplicado antes da verificação, ele deve ser formalmente identificado, permitindo localização posterior e correção. Além disso, descarregar antes de conferir retira a possibilidade de recusa no ato, que é a saída mais simples.
Quantos materiais controlados a minha empresa precisa ter?
No mínimo 20, pelo Anexo 4 do Regimento Geral do SiAC, em lista própria e representativa dos sistemas construtivos da empresa. O número pode ser diferente se justificado pelo sistema construtivo. Sobre a lista, o nível B exige 50% sob controle e o nível A, 100%, com arredondamento sempre para cima.
A FVM em papel ainda vale em auditoria do PBQP-H?
Vale. O SiAC não impõe formato, impõe conteúdo e controle da informação documentada. O que a auditoria verifica é se o registro traz o critério de aceitação, o resultado verificado, a evidência e a identificação de quem autorizou a liberação, e se a data do registro é coerente com a data da entrega.
O que escrever no verso do DANFE ao recusar uma carga?
A declaração de recusa, total ou parcial, o motivo objetivo com o critério verificado, a identificação do destinatário com CNPJ, o nome completo, o CPF e o cargo de quem recusou, a data, a hora e a assinatura. O Ajuste SINIEF 07/2005 prevê que o DANFE do retorno contenha o motivo do fato em seu verso.
Preciso ensaiar todo material que chega na obra?
Não. O requisito 8.6.1 dispensa o ensaio de recebimento de materiais conformes de empresas qualificadas nos PSQ ou de produtos certificados no SBAC, e dispensa o ensaio de um lote quando o fabricante apresenta relatório de ensaio rastreável ao material entregue. A inspeção de recebimento e o registro continuam obrigatórios.
Posso aceitar um material fora do especificado?
Pode, como aceitação sob concessão, prevista no requisito 8.7.1. Exige decisão de autoridade pertinente, aprovação do cliente quando o requisito for dele, registro da não conformidade, das ações e de quem decidiu, e sinalização da restrição de uso no estoque e na ficha. Sem registro, não é concessão, é irregularidade.
Do portão da obra à ficha que se sustenta na auditoria
Todo o rito deste guia se resume a três perguntas que alguém vai fazer meses depois: o que foi conferido neste lote, contra qual critério, e quem liberou. Quando a resposta mora numa folha que ficou no portão, numa foto perdida no WhatsApp e numa planilha preenchida no fim do dia, a obra tem o trabalho da conferência sem a prova dela.
Sobre o autor

Guilherme Xavier Sella
Engenheiro Civil e CEO do Obras Check
Criei o Obras Check para padronizar e organizar a gestão e qualidade das obras.