| Índice | Em que fase aparece | O que significa | Pode executar com ela? |
|---|---|---|---|
| Rev. A, Rev. B, Rev. C | Estudo preliminar, anteprojeto, projeto legal, compatibilização entre disciplinas | Documento em desenvolvimento ou em aprovação. Ainda pode mudar por decisão de projeto ou exigência de órgão público | Não |
| R00 | Projeto executivo aprovado pela coordenação | Emissão inicial. É a linha de base da construção | Sim |
| R01, R02, R03 e seguintes | Qualquer alteração posterior ao R00 | Nova versão vigente. A publicação da R01 invalida a R00 no canteiro | Sim, sempre a de índice mais alto |
Controle de revisão de projetos: o guia do canteiro
Controle de revisão de projetos é o conjunto de regras que define como cada prancha é nomeada, aprovada, publicada e substituída ao longo do empreendimento. Ele existe para responder a uma pergunta só, e sempre a mesma: qual desenho vale agora. Na prática, funciona sobre quatro pilares. Nomenclatura padronizada, revisão vigente registrada em lista mestra, distribuição controlada para o canteiro e recolhimento formal da versão anterior.
A maioria dos artigos sobre o assunto para no primeiro pilar. Ensina a nomear o arquivo, explica o padrão AsBEA e encerra. Só que o erro caro não acontece no servidor da coordenação, acontece na bancada do mestre de obras, quando alguém executa uma alvenaria com uma folha impressa três semanas atrás. Este guia cobre o ciclo inteiro, do código do arquivo até o carimbo de OBSOLETO na cópia recolhida, e traz o que quase ninguém escreve: como provar, em campo, que a folha na mão do encarregado é a vigente.
O que é controle de revisão de projetos?
Controle de revisão de projetos é a parte da gestão documental da obra que rastreia cada alteração feita em um desenho técnico, identifica qual é a versão válida e garante que apenas ela circule nas frentes de serviço. Não se confunde com gerenciamento de projetos no sentido do PMBOK, que trata de escopo, prazo e custo. Aqui o objeto é físico e específico: a prancha, o memorial, a especificação técnica.
O processo tem três papéis definidos, e vale nomear cada um antes de seguir:
- Projetista. Desenvolve a alteração no ambiente CAD ou BIM e publica o arquivo. Não libera nada para a obra por conta própria.
- Coordenador de projetos. Faz a análise crítica, verifica o impacto da alteração nas demais disciplinas, aprova e muda o status do documento para LIBERADO PARA EXECUÇÃO. É o dono da lista mestra.
- Engenheiro residente e responsável da qualidade na obra. Recebem a revisão, distribuem no canteiro, recolhem a versão anterior e registram tudo.
Quando esses papéis não estão escritos, o controle vira responsabilidade difusa, e responsabilidade difusa em obra significa que ninguém fez. Em empresas com sistema de gestão da qualidade implantado, essa divisão costuma estar formalizada no procedimento de controle de documentos e no Plano de Qualidade da Obra (PQO).
O ambiente onde os arquivos vivem também tem nome técnico: ambiente comum de dados (CDE), do inglês Common Data Environment. É o repositório único onde cada documento tem um status explícito, algo que uma pasta compartilhada genérica não oferece, porque nela todo arquivo tem a mesma aparência de arquivo válido.
Qual a diferença entre emissão e revisão de um projeto?
Emissão é o ato de publicar o documento, com data, para um uso determinado. Revisão é o índice que identifica quantas vezes o conteúdo daquele documento mudou. Toda revisão de projeto R00 R01 nova gera uma emissão nova, mas nem toda emissão significa que o desenho mudou de conteúdo, pode ser reemissão para outra finalidade.
No selo da prancha os dois campos convivem, e é comum a equipe olhar o campo errado:
- Data de emissão. Quando aquela folha foi publicada e liberada.
- Data da revisão. Quando o conteúdo daquele índice foi alterado.
A regra prática para o canteiro é simples: quem manda é o índice de revisão, e a data confirma. Se duas folhas do mesmo documento estão na frente de serviço, vale a de índice maior. Se o índice é o mesmo e a data é diferente, alguém reimprimiu fora do processo e as duas devem ser conferidas contra a lista mestra antes de qualquer serviço.
O que significam R00, R01 e R02 na prancha?
R00 é a emissão inicial do projeto executivo liberada para o canteiro. R01, R02 e R03 são as revisões posteriores, cada uma revogando automaticamente a anterior. Antes do R00, enquanto o projeto está em estudo, compatibilização ou aprovação legal, a convenção usada é alfabética: Rev. A, Rev. B, Rev. C.
Essa separação entre índice alfabético e índice numérico é a parte que mais gera confusão em obra, e é o que a tabela abaixo resolve.
Três regras derivam disso e valem repetir para a equipe:
- Folha alfabética não vai para a frente de serviço. Rev. B serve para aprovar, orçar e compatibilizar, não para construir.
- A revisão nova revoga a anterior. Não existe convivência de duas revisões válidas do mesmo documento. Se a R01 saiu, a R00 é papel morto.
- Alteração exige índice novo. Riscar a folha na obra, corrigir uma cota à caneta ou anexar um croqui no grupo de mensagens não é revisão. É desvio de processo, e cria uma versão que só existe naquela cópia.
Como nomear os arquivos de projeto pelo padrão AsBEA?
O padrão AsBEA nomenclatura revisão, difundido pela Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA), monta o nome do arquivo como um código encadeado de campos, com algo entre 17 e 20 caracteres. Cada campo tem posição e tamanho fixos, de modo que o nome sozinho já diz de qual obra, disciplina, fase, pavimento e revisão aquele desenho é, ensinando na prática como organizar plantas de obra.
Exemplo de código completo, decodificado campo a campo:
XYZ-042-ARQ-EX-XA01-TER-PLA-R01
| Campo | Valor no exemplo | O que representa |
|---|---|---|
| Construtora ou empresa | XYZ | Três caracteres que identificam a organização responsável |
| Obra ou empreendimento | 042 | Três dígitos do contrato ou do empreendimento |
| Disciplina | ARQ | Especialidade técnica do desenho |
| Fase | EX | Maturidade da informação, aqui projeto executivo |
| Folha ou prancha | XA01 | Identificador de torre mais número sequencial |
| Localização | TER | Posição física na obra, aqui térreo |
| Assunto | PLA | Tipo de desenho contido na folha, aqui planta baixa |
| Revisão | R01 | Índice da versão |
Siglas de disciplina mais usadas:
| Sigla | Disciplina |
|---|---|
| ARQ | Arquitetura e urbanismo |
| AIT | Arquitetura de interiores |
| EST | Estruturas de concreto e estrutural em geral |
| MET | Estruturas metálicas |
| FND | Fundações e geotecnia |
| HID | Instalações hidrossanitárias e drenagem |
| ELE | Instalações elétricas e telefonia |
| GAS | Instalações de gás combustível |
| MEC | Instalações mecânicas e climatização |
| BOM | Proteção e combate a incêndio |
| PAI | Arquitetura paisagística |
| TOP | Topografia e agrimensura |
| VED | Vedações verticais e alvenaria |
Códigos de fase:
| Sigla | Fase do projeto |
|---|---|
| EP | Estudo preliminar |
| AP | Anteprojeto |
| PB | Projeto básico |
| PL | Projeto legal, para aprovação em prefeitura e concessionárias |
| EX | Projeto executivo, liberado para o canteiro |
Localização e assunto, os dois campos mais esquecidos, seguem a mesma lógica. Para localização, siglas como TER para térreo, 1SS para primeiro subsolo, TIP para pavimento tipo, COB para cobertura, BAR para barrilete, CRT para cortes gerais e FAC para fachadas. Para assunto, PLA para planta baixa, CRT para cortes e seções, AMO para áreas molhadas, ELP para elevação de paredes e DCT para detalhes construtivos. Em empreendimento de torre única, o campo de folha usa a letra X na frente, como XA01. Com múltiplas torres, usa a letra da edificação, AA01 para a Torre A, BA01 para a Torre B.
O ganho não é estético. Com o código padronizado, ordenar a pasta por nome já agrupa disciplina, pavimento e revisão na ordem certa, a busca encontra a folha pelo trecho do código e ninguém precisa abrir o arquivo para saber o que ele é. É o fim do planta_final_v2_corrigida_ok.dwg, que é o nome de arquivo mais perigoso da construção civil brasileira, porque parece definitivo e quase nunca é.
O que precisa constar no carimbo da prancha?
O carimbo, ou selo, fica no canto inferior direito da folha e é onde o controle de revisão se torna verificável por qualquer pessoa que pegue o papel na mão. Um selo completo tem os campos abaixo.
| Campo do carimbo | Conteúdo | Por que importa |
|---|---|---|
| Identificação do empreendimento e da folha | Nome da obra, código do documento, título da prancha, escala | Liga o papel ao contrato e ao acervo |
| Tabela de histórico de alterações | Colunas de índice (R00, R01), descrição sucinta da modificação, data, desenhista e aprovador | Diz o que mudou entre uma revisão e outra, sem precisar comparar desenhos |
| Responsabilidade técnica | Autores, registro CREA ou CAU, número da ART ou RRT | É o vínculo legal do desenho com quem responde por ele |
| Campo de validação operacional | Espaço para o carimbo LIBERADO PARA EXECUÇÃO ou CÓPIA CONTROLADA | Separa a folha oficial da cópia informal |
| Identificador de rastreabilidade | QR Code ou código vinculado ao arquivo na nuvem | Permite conferir a vigência da folha em campo, com a câmera do celular |
Um detalhe operacional faz diferença na tabela de histórico: a descrição da alteração precisa ser específica. "Ajuste na posição do ponto de esgoto da cozinha" permite que o encarregado saiba onde olhar. "Revisão geral" obriga a comparar a prancha inteira, e na prática ninguém compara, o que transforma a revisão em risco silencioso.
Como montar a lista mestra de projetos?
A lista mestra é o documento que responde, a qualquer momento e para qualquer pessoa, qual revisão de cada prancha está valendo. É o item que a auditoria pede primeiro e é o que separa uma obra organizada de uma obra que apenas parece organizada. Ela pode viver em planilha ou em sistema, desde que exista uma só e esteja atualizada.
As colunas mínimas, prontas para montar a sua:
| Coluna | Conteúdo |
|---|---|
| Código do documento | Nome padronizado da prancha, sem o índice de revisão |
| Título | Descrição legível, por exemplo Planta de forma do 4º pavimento |
| Disciplina e fase | ARQ, EST, HID, ELE e a fase correspondente |
| Revisão vigente | R00, R01, R02 |
| Data da emissão vigente | Data em que a revisão atual foi liberada |
| Status | Em análise, liberado para execução, cancelado |
| Aprovador | Quem fez a análise crítica e liberou |
| Data de distribuição | Quando a obra recebeu |
| Cópias impressas em circulação | Quantas, onde e com quem |
| Revisão anterior recolhida | Sim ou não, com data |
As duas últimas colunas são as que quase todo mundo esquece, e são exatamente as que fecham o ciclo. Sem elas a lista mestra descreve o servidor, não o canteiro. Com elas, a pergunta "onde estão as folhas da R00 que precisam sumir" tem resposta em dez segundos.
Regra de manutenção: a lista mestra é atualizada no ato da liberação, não no fim do mês. E uma cópia dela precisa estar visível na obra, no quadro da qualidade ou em tela de fácil acesso, porque uma lista mestra que só a coordenação enxerga não controla nada em campo.
O que a ISO 9001 e o PBQP-H SiAC exigem do controle de projetos?
A NBR ISO 9001:2015 trata do assunto no item 7.5, que fala de informação documentada. O requisito exige controle sobre criação, atualização, identificação, formato, análise crítica e aprovação dos documentos. O item 7.5.3 acrescenta o controle de distribuição, acesso, recuperação, armazenamento, controle de alterações, retenção e disposição final, além da proteção contra uso não pretendido.
O PBQP-H é o Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat. Seu sistema de avaliação da conformidade, o SiAC, tem o regimento geral consolidado na Portaria nº 79, de 14 de janeiro de 2021, do Ministério das Cidades. Ele qualifica construtoras em níveis, sendo o Nível A o mais exigente, e a certificação tem peso direto no acesso a financiamento habitacional público e em participação de licitações. Para cada empreendimento, o SiAC exige o Plano de Qualidade da Obra (PQO), que precisa normatizar o recebimento e a conferência dos projetos no canteiro, o uso de pranchas identificadas como cópia controlada e o recolhimento formal das versões superadas.
Como os dois se encontram no mesmo fluxo:
| Requisito | NBR ISO 9001:2015, item 7.5 | PBQP-H SiAC, regimento de 2021 |
|---|---|---|
| Conceito base | Gestão da informação documentada | Qualificação de empresas de serviços e obras |
| Instrumento obrigatório | Lista mestra de documentos atualizada | Plano de Qualidade da Obra (PQO) |
| Controle de distribuição | Garantia de que o documento certo está disponível no local de uso | Uso exclusivo de pranchas com carimbo de cópia controlada |
| Tratamento do obsoleto | Prevenção contra uso não pretendido | Recolhimento, inutilização física ou carimbo de OBSOLETO |
| Consequência da falha | Não conformidade apontada no sistema de gestão | Registro de não conformidade que impede a certificação de Nível A |
A leitura prática das duas colunas é a mesma: a norma não pergunta se você tem software. Pergunta se você consegue mostrar qual revisão está válida, quem recebeu, quando recebeu e o que foi feito com a folha antiga. Quem consegue responder isso com evidência atende os dois referenciais com um único processo.
Como funciona o fluxo de aprovação e distribuição até o canteiro?
O trajeto de uma alteração, do momento em que o projetista mexe no desenho até a hora em que o pedreiro usa a folha certa para evitar retrabalho na obra projetos, tem seis etapas. Cada uma com um responsável e um registro.
- Desenvolvimento e publicação. O projetista faz a alteração em CAD ou BIM e publica o arquivo editável e o PDF no ambiente comum de dados (CDE), com status de em análise.
- Análise crítica da coordenação. O coordenador verifica o impacto da alteração nas demais disciplinas, aprova e muda o status para LIBERADO PARA EXECUÇÃO. Sem essa etapa, uma correção de arquitetura chega ao canteiro sem que a estrutura tenha sido consultada.
- Atualização da lista mestra. A revisão vigente passa a ser a R(n) e a anterior vai para o histórico, acessível mas claramente fora de uso.
- Protocolo de transmissão de documentos. A coordenação emite o protocolo de transmissão de documentos notificando o engenheiro residente da nova prancha disponível, e colhe o aceite.
- Recolhimento e substituição no canteiro. A obra localiza as cópias impressas da revisão anterior, inutiliza ou carimba como OBSOLETO, e coloca a nova folha com carimbo de cópia controlada nas pastas de campo.
- Validação em campo antes do serviço. Antes de iniciar fôrma, armação, tubulação ou alvenaria, o encarregado confere se a folha em mãos é a vigente.
O protocolo de transmissão de documentos da etapa 4 é curto e leva dois minutos para preencher. Os campos que ele precisa ter: número do protocolo, data, emissor, destinatário, relação dos documentos com código e índice de revisão, motivo da emissão, e campo de aceite com nome, data e assinatura de quem recebeu. É esse papel de duas linhas que separa "eu avisei a obra" de "ninguém me falou nada" quando a discussão chega na reunião de medição.
Como garantir que o canteiro está com a revisão vigente?
Aqui está a diferença entre organizar projeto e controlar projeto. Organizar é tarefa de escritório e todo mundo faz razoavelmente bem. Controlar é provar, em campo, que a folha que está na mão do encarregado é a válida, definindo a melhor forma de compartilhar planta com canteiro. São cinco mecanismos, e eles funcionam empilhados, não isolados.
1. Fonte única, com permissão de leitura para o campo. Uma pasta só, um sistema só. A obra acessa e consulta, não edita nem apaga. No instante em que uma prancha é enviada por aplicativo de mensagem ou anexada em e-mail, ela vira cópia não controlada, porque passa a existir fora do alcance de qualquer atualização.
2. Carimbo de cópia controlada em toda folha impressa. Cada impressão liberada recebe o carimbo, o número da cópia e o destino, por exemplo cópia 03, frente de serviço da Torre B. Folha impressa sem carimbo é folha sem dono e sem rastreio.
3. Lista mestra visível na obra. Impressa no quadro da qualidade ou aberta em tela de acesso comum. Se para saber a revisão vigente é preciso ligar para a coordenação, o processo não sobrevive a uma sexta-feira à tarde.
4. Validação no ato, pelo QR Code do carimbo. O código impresso no selo aponta para o arquivo vigente na nuvem. O encarregado aponta a câmera do celular e a tela confirma se aquela folha é a atual. É o mecanismo que dispensa treinamento, porque usa um gesto que a equipe já domina, e é o que resolve a objeção de que o campo não tem maturidade digital.
5. Ponto de checagem antes de serviço irreversível. Concretagem, fechamento de shaft, marcação de alvenaria e passagem de eletroduto em laje só liberam com a conferência do índice da revisão consultada, registrada na liberação assinada. Serviço irreversível merece verificação formal, o resto pode ser rotina.
O procedimento de recolhimento da revisão vencida
Este é o pedaço que os concorrentes descrevem como obrigação e ninguém detalha como rotina. Publicada a revisão nova, a obra executa:
- Recebe o protocolo com a relação das pranchas que mudaram de índice.
- Localiza todas as cópias da revisão anterior: pasta de campo, barracão, sala do mestre, frente de serviço, empreiteiro e projetista terceirizado que esteja com folha impressa.
- Inutiliza ou carimba como OBSOLETO. A destruição é o caminho mais seguro. Quando a cópia precisa ser retida por histórico, ela vai carimbada para uma pasta separada, fora do fluxo de consulta.
- Registra na lista mestra a data do recolhimento e quantas cópias voltaram, comparando com quantas foram distribuídas. A conta precisa fechar.
- Distribui a revisão nova com carimbo de cópia controlada e colhe o aceite de quem recebeu.
- Abre registro de não conformidade (RNC) se algum serviço já foi executado pela revisão anterior, e trata como não conformidade, com análise de causa e decisão sobre refazer, reforçar ou aceitar mediante avaliação técnica.
A falha mais comum não está nesse roteiro, está fora dele: a foto da planta no celular particular do encarregado. Ela não tem carimbo, não tem número de cópia e não tem recolhimento possível. Por isso o procedimento precisa dizer, com todas as letras, que prancha não circula por foto em aplicativo de mensagem. Quem quiser consultar pelo celular consulta o arquivo vigente no sistema, que atualiza sozinho.
Quanto custa executar com projeto desatualizado?
Levantamentos do setor de engenharia de produção civil apontam que retrabalho e erros de execução consomem entre 5% a 15% do custo total de um empreendimento. Parte relevante desse total nasce de obra executada com projeto desatualizado, incompleto ou com incompatibilidade não resolvida. A conta que raramente é feita, porém, é a do evento isolado: quanto custa uma única parede erguida pela revisão errada.
O custo se divide em duas camadas.
Custos diretos:
- Demolição do serviço executado e remoção do entulho.
- Material perdido, que inclui bloco, argamassa, tubulação, eletroduto, aço e concreto já aplicados.
- Refazimento completo do serviço, com material e mão de obra novamente.
Custos indiretos, que costumam ser maiores que os diretos:
- Mão de obra parada durante a decisão técnica sobre o que fazer.
- Prorrogação de locação de fôrma, escoramento e equipamento.
- Deslocamento das atividades sucessoras no cronograma, com efeito em cascata.
- Multa contratual por atraso de entrega, quando prevista.
- Desgaste com o cliente, com o projetista e com a própria equipe, que é o custo que não entra em planilha e é o que mais dura.
Para calcular o evento na sua obra, some as parcelas com os valores do seu orçamento:
Custo do erro = demolição e remoção + material perdido + (homens-hora parados x custo horário da equipe) + (dias adicionais x custo diário de locação e indiretos) + multa aplicável
Duas observações que mudam a ordem de grandeza do resultado. A primeira: o custo é assimétrico no tempo. Erro descoberto antes da concretagem custa uma conversa, o mesmo erro descoberto depois custa demolição de elemento estrutural. A segunda: quanto mais enterrado ou embutido o serviço, maior o multiplicador, porque a correção passa a exigir abertura de elemento pronto.
Que erro cada disciplina comete com planta vencida?
O padrão de falha muda conforme a disciplina, e conhecer o padrão ajuda a escolher onde apertar o controle primeiro.
| Disciplina | Erro típico com revisão vencida | Impacto no canteiro | Mecanismo preventivo |
|---|---|---|---|
| Estruturas (EST) | Concretagem de elemento com armação ou furação alterada na revisão nova | Reforço estrutural de alto custo ou demolição do elemento | Conferência obrigatória do índice da folha de fôrma e armação antes do lançamento do concreto |
| Hidráulica (HID) | Prumada ou shaft montado em posição modificada pela revisão da arquitetura | Rasgo em alvenaria pronta e perda de tubos e conexões | Checagem da lista mestra pelo encarregado de instalações no início de cada semana |
| Elétrica (ELE) | Eletroduto passado em laje conforme leiaute de pontos já revogado | Impossibilidade de puxar a fiação, exigindo tubulação aparente ou rasgo em laje | Liberação de concretagem condicionada à assinatura do índice do projeto elétrico vigente |
| Vedações (VED) | Marcação de vãos de porta e janela sem considerar a revisão de esquadrias | Desperdício de bloco e argamassa, refazimento de verga e contraverga | Elevação de paredes com carimbo de cópia controlada exposta na frente de trabalho |
O denominador comum das quatro linhas é o momento da verificação. Em todos os casos, o controle que funciona acontece imediatamente antes do serviço, não na reunião semanal.
Qual versão vale quando os documentos divergem?
Divergência entre documentos é rotina, e a discussão no canteiro costuma terminar na opinião de quem fala mais alto. Existem critérios técnicos consolidados, e dois deles aparecem nos manuais de auditoria de obras públicas e em pareceres do Tribunal de Contas da União (TCU).
- Prevalência das cotas sobre a escala gráfica. Quando a medida obtida com escalímetro sobre a folha diverge do valor numérico da cota, prevalece a cota. Medir na régua é aproximação, cota é informação declarada pelo projetista.
- Prevalência do documento de data mais recente. Quando coexistem folhas de datas distintas do mesmo documento, prevalece a mais recente sobre qualquer versão anterior ou estudo preliminar.
Os dois critérios nasceram no contexto de obra pública, mas funcionam como regra de interpretação técnica em qualquer contrato, e vale escrevê-los no procedimento interno da construtora para encerrar a discussão antes que ela comece.
Falta uma terceira situação, que os critérios acima não resolvem sozinhos: disciplinas em ritmos diferentes. Se a arquitetura está na R03 e a elétrica na R01, a folha mais recente da arquitetura não autoriza executar a elétrica por dedução. Nesse caso o que decide é a compatibilização, e a resposta correta é acionar a coordenação para emitir a revisão da disciplina atrasada, não interpretar a diferença no canteiro.
Perguntas frequentes
O que significa R00 em um projeto?
R00 é a emissão inicial do projeto executivo, aprovada pela coordenação e liberada para execução no canteiro. Ela marca a linha de base da construção. Antes do R00, o documento está em fase de estudo ou aprovação e costuma usar índice alfabético, como Rev. A ou Rev. B, que não autoriza execução.
Qual a diferença entre versão e revisão de projeto?
Versão é qualquer estado do arquivo enquanto o projetista trabalha nele, inclusive salvamentos internos que ninguém mais vê. Revisão é a alteração formalizada, aprovada pela coordenação, com índice novo, data e descrição no carimbo. Só a revisão é publicada, distribuída e registrada na lista mestra.
Posso executar um serviço com uma prancha em Rev. B?
Não. O índice alfabético indica documento em desenvolvimento, compatibilização ou aprovação legal, sujeito a alteração por decisão de projeto ou exigência de órgão público. A execução só é autorizada a partir da emissão R00 do projeto executivo, com o carimbo de LIBERADO PARA EXECUÇÃO preenchido.
E quando a arquitetura está na R03 e a elétrica ainda na R01?
Não interprete a diferença no canteiro. A folha mais nova de uma disciplina não valida por dedução o desenho atrasado de outra. Acione a coordenação de projetos para compatibilizar e emitir a revisão pendente. Enquanto isso, serviços afetados pela divergência ficam bloqueados, com registro do motivo.
Dá para usar WhatsApp ou Google Drive para mandar planta para o canteiro?
Funciona para avisar, não para controlar. Arquivo enviado por mensagem vira cópia não controlada no instante do download, porque não atualiza sozinho, não tem status e não pode ser recolhido. Pasta genérica de nuvem também não registra distribuição nem impede que a versão antiga continue aberta no celular de alguém.
O que a auditoria do PBQP-H olha no controle de projetos?
Pede a lista mestra atualizada, o procedimento de controle de documentos, o Plano de Qualidade da Obra (PQO) e a evidência de distribuição. No canteiro, verifica se as pranchas em uso têm carimbo de cópia controlada e se as revisões superadas foram recolhidas, inutilizadas ou carimbadas como OBSOLETO.
Quem aprova uma revisão de projeto?
A coordenação de projetos da contratante, depois da análise crítica que verifica o impacto da alteração nas demais disciplinas. O projetista propõe e publica, a coordenação aprova e libera, a obra recebe mediante protocolo. Quando esses três papéis se misturam em uma pessoa só, o controle deixa de existir na prática.
Da regra escrita ao canteiro que cumpre
Todo o processo descrito aqui depende de uma coisa: que a resposta para "essa folha é a última?" esteja a poucos segundos de distância de quem está com a folha na mão. Quando os projetos moram em pasta compartilhada, e-mail e grupo de mensagem, essa resposta custa um telefonema, e telefonema não acontece às sete da manhã na frente de serviço.
É exatamente essa a função do módulo Arquivos e projetos do Obras Check: "Centralize projetos, plantas e documentos. Versão certa, sempre acessível, no canteiro ou no escritório." Cada arquivo carrega seu histórico de versões com o índice visível na miniatura, aceita comentário e marcação sobre a própria planta, e pode ser compartilhado por QR Code ou link, para que a validação em campo seja um gesto de câmera, não um procedimento.
Sobre o autor

Guilherme Xavier Sella
Engenheiro Civil e CEO do Obras Check
Criei o Obras Check para padronizar e organizar a gestão e qualidade das obras.
